Publicado em 08/02/2023 13:12

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a cobrar o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Na terça-feira (7), em entrevista a profissionais da mídia independente no Palácio do Planalto, afirmou que o Brasil não pode mais continuar a ter crescimento “pífio”, pois é preciso acabar com a fome de 33 milhões de brasileiros e estimular a criação de empregos formais. Nesse sentido, para a economia voltar a crescer, Lula afirmou que é preciso reduzir os juros no país.
“Ainda não conheço bem o presidente do Banco Central, estive com ele uma única vez. Sempre parto do pressuposto de que as pessoas estão com boa-fé, com boa vontade, de que ele (Campos Neto) quer acertar, quer consertar a economia brasileira, e que a economia precisa voltar a crescer. E para a economia voltar a crescer, é preciso que os juros sejam acessíveis para parte dos investidores brasileiros”, afirmou o presidente.
Na semana passada, o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC decidiu manter a taxa básica de juros, a Selic, em 13,75% ao ano. Em comunicado, o comitê alertou para os riscos de alta na inflação, sinalizando que os juros devem se manter mais elevados por mais tempo. Hoje, na ata divulgada pelo BC, o tom foi mais brando, citando medidas adotadas pela equipe econômica que podem atenuar o risco fiscal.
“Não é possível que a gente queira que o país volte a crescer com uma taxa de juros de 13,75%, repetiu Lula. “Não temos inflação de demanda. É só isso. É só isso que eu acho que esse cidadão que foi indicado pelo Senado, tenha a possibilidade de maturar, de pensar e saber como é que vai cuidar desse país”, completa.
Lula afirmou que Campos Neto tem muita responsabilidade. “Ele tem mais responsabilidade do que o Meirelles (ex-presidente do BC) tinha no meu tempo”. Mas disse que Campos Neto não deve satisfação a ele, mas ao Congresso Nacional, que aprovou a independência do BC.
O jornalista Eduardo Costa Pinto lembrou que o Conselho Monetário Nacional (CMN) tem a atribuição de pedir a exoneração do presidente do BC, em casos de incompetência ou sabotagem. Para tanto, seria necessário contar com a aprovação da maioria do senado (41 votos). E questionou se este poderia ser o caminho, caso Campos Neto se mantenha “intransigente” em relação à manutenção das elevadas taxas de juros.
O presidente evitou uma resposta taxativa. Mas disse que os ministros Fernando Haddad (Fazenda) e Simone Tebet (Planejamento) – que compõem o CMN junto com o presidente do BC – devem “acompanhar” a situação. Além dos ministros, Lula também afirmou que o Senado deve estar “vigilante”.
Entre as atribuições do CMN, por exemplo, está o estabelecimento da meta de inflação. Para este ano, o CMN fixou a meta em 3,5%. Para o ano que vem, apenas 3%. Desde 2017, a margem de tolerância também caiu, de 2 para 1,5 ponto percentual. Mais restritivas, as metas de inflação não foram cumpridas nos últimos dois anos. O que também poderia justificar a demissão do presidente do BC.
Foco no crescimento
Em recado ao mercado, Lula afirmou que é “amplamente favorável” à responsabilidade fiscal. Lembrou que realizou superávit fiscal durante os oito anos dos seus dois primeiros mandatos. Mas além disso, afirmou que é preciso ter responsabilidades econômica, política e, principalmente social. Isso porque a é a única, segundo ele, “em que a gente sobe um degrau e depois cai dez”.
“Então, no meu governo, a gente vai levar muito a sério essa questão do crescimento econômico”, disse Lula. “Estou apenas começando, mas estou levando muito a sério. Porque sei o que foi feito no primeiro mandato, e não quero fazer menos. E vamos ver como o BC se comporta”.
Lula lembrou que, durante o seu governo, cada vez que o BC subia os juros, recebia uma enxurrada de críticas dos setores empresarial e sindical. E também dos senadores. Agora, não podem mais cobrar do governo, mas do BC “independente”. “Estou muito tranquilo, não quero confusão. A única coisa que quero é que esse país volte à normalidade, volte a crescer, volte a gerar emprego e distribuir renda. É isso que eu quero. Se isso acontecer, eu estou feliz”, afirmou.
Vale lembrar que o presidente do BC, Campos Neto, foi flagrado em grupo de whatsapp com ministros do governo Bolsonaro e Anderson Torres, que está na lista de um dos responsáveis pelos ataques do dia 8 de janeiro, uma atitude questionável para o presidente de uma instituição independente.
Fonte: CUT