Publicado em 03/08/2026 08:20

Na quinta-feira (30), o Comando Nacional das Bancárias e dos Bancários apresentou à Federação Nacional dos Bancos (Fenaban) as reivindicações específicas sobre as cláusulas econômicas, ou seja, por aumento real nos salários, Participação nos Lucros e Resultados (PLR), vales refeição e alimentação, entre outros itens relacionados à remuneração.
O encontro se estendeu o dia inteiro, porque no retorno sobre as reivindicações de saúde, a Fenaban apresentou propostas que atacaram o direito da categoria, previsto na Cláusula 29, da Convenção Coletiva de Trabalho (CCT).
Cláusulas econômicas
Em 2025, juntos os cinco maiores bancos lucraram R$ 124 bilhões. Considerando todo o setor, o lucro líquido registrado foi de R$ 171 bilhões. No mesmo ano, o patrimônio líquido do setor bancário atingiu o montante de R$ 1,2 trilhão, valor 25 vezes maior do que a soma do patrimônio líquido dos setores eletroeletrônica e mecânica (R$ 48 bilhões), que ocupam os primeiros lugares no ranking dos mais rentáveis do país.
Além disso, a rentabilidade média dos bancos, a partir do período pós-pandemia, ficou em média 2,3 vezes acima da taxa básica de juros do Brasil (Selic), reconhecida como a mais elevada do mundo, e 3 vezes acima da inflação.

“Esses são dados que apontam para a perfeita capacidade dos bancos de atender as nossas reivindicações por aumento real na remuneração”, destacou a coordenadora do Comando Nacional, Juvandia Moreira.
Levantamento realizado pelo Dieese revela que:
– Os vales alimentação e refeição vem acumulando perdas nos últimos anos, sendo -13% no VA, entre 2019 e 2025, e -3,7% no VR, entre 2023 e 2025.
“Para que o vale alimentação retome o mesmo poder de compra que tinha em setembro de 2019, em relação à cesta básica, seria necessário um reajuste de cerca de 40% no valor atual, o que elevaria o valor mensal de R$ 924,47 para R$ 1293,73”, Juvandia.
– Redução com despesas de pessoal: Desde 2016, as despesas dos bancos com a folha de pagamento (salário, PLR, VA/VR e outros itens de remuneração) caíram 7%. “Separando a PLR dessa conta, a queda foi ainda maior: 11%”, registrou Ramon Peres, atual presidente do Seeb-BH.
– Distribuição cada vez menor de PLR: apesar de a Convenção Coletiva de Trabalho (CCT) da categoria determinar que os bancos distribuam até 15% de seus lucros, em 2025, somente a Caixa alcançou esse percentual, e o Banco do Brasil se aproximou, com 11%.
Além disso, de 1995 para 2025, os três maiores bancos privados reduziram o percentual de distribuição do lucro, a título de PLR, de dois dígitos para, em média, 5,9%.
– Adoção de um piso para os trabalhadores em TI e, para as funções de entrada na categoria em geral, o “Salário Mínimo Necessário do Dieese” (R$ 7.999,44).
“O valor de piso salarial que estamos propondo não está além da capacidade que o setor bancário tem de cobrir suas despesas com pessoal”, destacou a também coordenadora do Comando Nacional, Neiva Ribeiro.
Aumento real é prioridade para a categoria
A Consulta Nacional dos Bancários, deste ano, registrou que o aumento real nos salários é prioridade para 93% da categoria, seguido do aumento da PLR, com 63%, e do reajuste maior no vale-refeição (VR) e vale-alimentação (VA), com 51%.
Após ouvir as reivindicações sobre as cláusulas econômicas, a Fenaban informou que irá analisar as propostas apresentadas pelo Comando Nacional dos Bancários e apresentar um retorno nas próximas rodadas da negociação.
Retorno sobre a mesa de Saúde e Condições de Trabalho
Na parte final da mesa de negociação desta quinta, a Fenaban retorno sobre as reivindicações de saúde e condições de trabalho, apresentadas pelos trabalhadores na rodada passada (21 de julho).
Entre as reivindicações do movimento sindical está a participação dos trabalhadores na implementação da NR-1 (Norma Regulamentadora nº1), com o mapeamento dos riscos psicossociais e acesso às informações de saúde na categoria, a partir de planos de ações desenvolvidos junto às Comissões de Organização dos Empregados (COEs) e à mesa única de negociação.
A Fenaban sinalizou disposição para debater, periodicamente, o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) nas COEs e na mesa única. “Consideramos um avanço e esperamos que estes debates resultem em medidas para prevenir o adoecimento”, avaliou Juvandia Moreira, que também é presidenta da Contraf-CUT.
No entanto, em seguida, a Fenaban tornou o debate extenuante, apresentando uma série de argumentos que já sustentava, de que o alto índice de afastamento de bancários estaria ligado a multifatores, principalmente à facilidade de se obter atestados médicos. Dando a entender a falta de boa-fé por parte dos trabalhadores.
A Fenaban questiona também a capacidade dos médicos que fornecem atestados, em função do desconhecimento da realidade do trabalho bancário e questionou a sustentação científica para os dados sobre afastamento na categoria, quando relacionados ao modelo de gestão por metas.
“Não compactuamos com fraudes. Também não podemos pautar o debate a partir de má-fé, seja de alguns médicos ou de trabalhadores. Entidades internacionais, como OIT (Organização Internacional do Trabalho), OMS (Organização Mundial da Saúde), e nacionais, como Ministério do Trabalho e Emprego e Ministério Público do Trabalho, afirmam que a sobrecarga no trabalho está diretamente relacionada ao adoecimento mental dos trabalhadores”, completou Juvandia Moreira.
Em seguida, os bancos atacaram diretamente a Cláusula 29, da CCT, que trata da complementação salarial para os afastados, com duração de até dois anos, com possibilidade de renovação.
No lugar, a Fenaban propôs a redução desse período para apenas 45 dias. E, após esse período, os médicos do trabalho do banco é que iriam decidir se o trabalhador continuaria ou não afastado.
Em resposta, o Comando Nacional registrou que não aceita retirada de direitos. Em seguida, reforçou que, para melhorar as condições de trabalho e qualidade de vida da categoria, são necessárias medidas de mitigação dos riscos que reduzam a sobrecarga, incluindo mudanças no modelo de gestão, discussão de metas e a implantação da jornada semanal de quatro dias de trabalho e três de descanso (4×3), sem redução de salários e de direitos.
Os bancos recuaram da proposta sobre a Cláusula 29, e disseram que vão apresentar outra contraproposta nas próximas rodadas.
Reforço da defesa da mesa única
O encontro foi encerrado com a defesa, por parte do Comando Nacional, da manutenção da mesa única de negociações, “dada a sua relevância histórica na construção e garantia de direitos na categoria”, destacou Juvandia Moreira.
Nos últimos dias, entidades sindicais de todo o país reforçaram as manifestações nas agências e nas redes sociais em defesa da mesa única. “É a unidade na negociação que protege os direitos de todos os bancários, sejam de bancos públicos ou privados. E, sem a manutenção dessa unidade, não conseguiremos avançar, sobretudo diante dos desafios impostos pelos avanços tecnológicos e da reestruturação do sistema financeiro”, concluiu.
Próxima negociação
A próxima mesa de negociação está agendada para ocorrer na terça, 4 de agosto, mantendo remuneração (cláusulas econômicas) como tema.
“Cobramos que a Fenaban apresente, já no próximo encontro, uma proposta concreta que atenda às necessidades e expectativas da categoria em relação às cláusulas econômicas, saúde e condições de trabalho. Os bancários e bancárias devem ficar atentos ao site e redes sociais do Sindicato para receber nossas convocações para plenárias e outras ações de mobilização”, arrematou Neiva Ribeiro.